sábado, 16 de janeiro de 2016

coração albergue

não precisa entender tanto faz a ordem quando olho pra esses jardins ensimesmados minha vontade é despedaçar palavras cortá-las em várias partes esquartejá-las e fazer você engolir fração por fração até ser um inteiro completo desse amor fragmentado que eu teimo em cultivar todos os dias desde sempre desde quando nem havia a luz nem o verbo e se fez a dor que só os poetas entendem e você teima em dizer não existe é coisa do imaginário mas a minha é palpável é sanguinolenta malcheirosa putrefata e está à deriva à tona descoberta e você ignora ou finge e nessa hora salto no abismo desse desejo hermético obscuro inerte como as estrelas já mortas do universo vomitando os excrementos da saudade do seu toque nessa distância de anos luz que faz do nosso amor o mais antigo que invadiu meu coração quando me apaixonei pelas palavras não ditas pelas entrelinhas pelos escaninhos do tempo meu querido meu amigo desde sempre desde antes da criação do cosmos vou te amar aqui e morar em seu coração-albergue que abriga todos os desvalidos inclusive eu entrei assim como um sem chão e você me deu de beber dos seus beijos me deu de comer do seu corpo  fui ficando e agora tenho direitos adquiridos por usucapião a sua ração diária de carinhos no café da manhã almoço e jantar petiscos de sexo nos intervalos meu amor talvez o que você nem saiba é que agora seu sangue circula no meu sistema na velocidade acelerada das manhãs apocalípticas do meu entardecer e antes que o sol se ponha definitivamente anote mais uma vez o que fica eu te amo mas não precisa entender tanto faz a ordem quando olho pra esses jardins ensimesmados minha vontade é despedaçar palavras cortá-las em várias partes esquartejá-las e fazer você engolir fração por fração até ser um inteiro completo desse amor fragmentado coisa do imaginário desde sempre desde quando nem havia a luz nem o verbo desde antes da criação do cosmos você teima em dizer não existe pelas entrelinhas pelos escaninhos do tempo você me deu de beber dos seus beijos me deu de comer do seu corpo  fui ficando e agora tenho direitos adquiridos por usucapião a jantar petiscos de sexo nos intervalos desse desejo hermético obscuro inerte como as estrelas já mortas vomitando os excrementos da saudade do seu toque vou te amar aqui e para sempre morar em seu coração-albergue que abriga todos os desvalidos inclusive eu entrei assim como um sem chão mas não precisa entender tanto faz a ordem quando olho pra esses jardins ensimesmados minha vontade é te amar aqui e para sempre morar em seu coração-albergue coisa do imaginário do meu entardecer quando nem havia a luz nem o verbo salto no abismo à deriva vomitando sanguinolenta malcheirosa putrefata quando olho pra esses jardins ensimesmados minha vontade é despedaçar palavras anote mais uma vez o que fica eu te amo

Uma gaiola saiu à procura de um pássaro

Estranho? Nem um pouco. Uma gaiola sem seu pássaro é como queijo sem goiabada.
Uma gaiola que se preze tem de ter no mínimo um pássaro do lado de dentro.
Quando eu crescer também vou sair à procura do meu. Quero um pássaro bem bonito, forte, alto, com um bico bem grande, olhos azuis e asas multicoloridas e que cante só para mim o dia todo.
Minha mãe sempre diz que toda gaiola, mais cedo ou mais tarde, encontra seu pássaro. Prefiro mais cedo...Só que ela não concorda com esse modismo de agora de gaiola que sai à procura de seu pássaro. Mamãe é mais conservadora, sabe como é, à moda antiga... para ela, uma gaiola de família deveria ficar quietinha em casa esperando o pássaro bater na sua portinhola.
- Se para cada panela existe uma tampa; se para cada pé de sapato há o par correspondente, é óbvio que para cada gaiola tem um pássaro certo, filosofa minha mãe.
Eu tenho cá minhas dúvidas se esta fórmula dá certo porque sei de tantas gaiolas vazias e solitárias na cidade. Aqui na minha rua mesmo tem umas três já meio passadas...se não saíram em busca de seus pássaros quando mais novas, acho um pouco difícil que encontrem. Sem contar que como elas nunca tiveram suas portinholas abertas...agora estão um pouco enferrujadas...
Na minha família mesmo tem uma tia que saiu à procura de seu pássaro, mas voltou de gaiola vazia. Coitada. Mamãe disse que ela teve até depressão. Ouvi dizer que se um pássaro abre sua portinhola e vai embora fica mais difícil encontrar outro que queira viver numa gaiola que já foi usada, sabe? Por isso tem tanta gaiola mal falada por aí! É verdade! São aquelas gaiolas que já tiveram vários pássaros. Um entra e sai danado. Nenhum para. Aí fica com fama ruim.
Mas eu sou muito pequena ainda. Sou uma gaiola em formação. Nem me preocupo com isso. Por enquanto cuido de deixar minha portinhola sempre fechadinha.
Minha mãe diz que hoje em dia é melhor não confiar em ninguém. Minha mãe é uma pessoa meio triste. Deve ser porque ela também é uma gaiola vazia.
Nunca vou esquecer daquele dia. Acordei com ela chorando, pedindo, implorando para o seu pássaro ficar. Ele disse coisas horríveis: que estava cansado de cantar o dia todo, de comer sempre o mesmo alpiste, daquela rotina desgastante de tira jornal, coloca jornal, da água que até o fim do dia ficava morna e empoeirada, de fazer as necessidades praticamente junto com a comida. Um horror! Mamãe bem que tentou. Fez várias promessas, mas não adiantou nada!
Ele estava decidido. Deixou mamãe piando sozinha.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A teoria do vovô de Laurinha

O avô de Laurinha, era um fumante inveterado, daqueles que acendiam um cigarro no outro, sabe? Isso foi no tempo em que fumar não era considerado politicamente incorreto e nos maços ainda não se estampavam cadáveres de fetos ou pessoas com as pernas amputadas como consequência do dito cujo. Também era permitido fumar em restaurantes, transportes públicos, de passeio e aviões. Sim. Existiam as bizarras alas de fumantes nos aviões e nos ônibus, que intrigavam a inteligente Laurinha porque, afinal, a fumaça dos cigarros nunca obedecia a linha imaginária que separava a fileira dos sãos da dos viciados.
E seu avô tinha uma teoria muito pessoal para a rebeldia da fumaça as vezes que ela reclamava que a fumaça fedorenta sempre vinha em sua direção quando jogavam dominó na varanda de casa, aos domingos de manhã, esperando o almoço ficar pronto.
Ele fumava Continental sem filtro. E como num ritual tragava e soltava lentamente a fumaça para os lados tomando o cuidado de não atingir a netinha com o veneno.
Tarefa inútil. Claro! A fumaça insistia em ir direto, sem escalas, se enroscar nos caracóis dos cabelos de Laurinha.
Por mais que ela se afastasse, fazendo manobras com o corpinho sempre coberto com vestidinhos de babados e lacinhos, a danada nunca errava o alvo.
Um dia, inocentemente intrigada, Laurinha perguntou para o avô por que a fumaça vinha sempre na sua direção? O avô olhou para a netinha e sorriu aquele seu sorriso maroto. Tentou limpar a garganta do característico pigarro dos fumantes, num esforço de eliminar a secreção que o mataria anos depois de falência pulmonar, e respondeu solenemente com seu meio sotaque espanhol: Ah, minha linda, a fumaça do cigarrillo é atraída solamente pelas pessoas bonitas, assim como tu!
Ingenuamente feliz, do alto de seus 4 aninhos Laurinha disse: Então matei a charada, vovô! Já sei por que a fumacinha branca invade a ala dos não fumantes dentro dos ônibus e aviões: quem se senta lá são as pessoas mais bonitas do mundo!

O vovô quase engasgando com a famigerada em questão, soltou uma contagiante gargalhada cujos chacoalhões levaram seu corpo magro para trás e, na volta, dando uma piscada de olhos, ele jogou uma baforada bem no meio do rosto de Laurinha... para selar sua teoria. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Agora sou a outra

Foto: Cartier Bresson
Levava a pequena criança pela mão, atravessava o mar de carros na avenida e voltava pra casa. Era assim. Não questionava.
Depois, bebia o chá, comia o bolo e sonhava: agora sou outra mulher.
Feira, açougue, padaria. Fogão, máquina de lavar. Mas hoje... hoje vai ser diferente. Porque agora sou outra mulher.
Coloca o vestido decotado, calça o sapato de domingo, passa o batom e o perfume emprestados, e sai para encontrar seu amor.
No caminho, alimenta o sonho: agora sou uma outra mulher.
O coração acelerado, lugar-comum dos apaixonados, quase para com as lembranças das cenas na sala de estar da casa da melhor amiga. Foram beijos obscenos, pegação, esfrega-esfrega e a promessa de Jurandir: quero te comer todinha. Me liga. Era sua primeira vez como a outra. Mas que importa? Agora sou mesmo uma outra mulher.
E no local combinado, assenta o corpo na cadeira do café. Pede um cappuccino e, suspira, enquanto deseja o marido da amiga, um gostoso tão diferente daquele indigente, pai de sua filha.
Meia-hora, uma hora...o encontro naufragado. Os olhos choram por dentro. O que eu fiz de errado? Agora sou a outra!
Travestida de indiferença, paga a conta pro garçom que, acostumado, adivinha o desfecho do enredo. Mas, não, com ela, não. Afinal, agora ela era uma outra mulher.

Depois, pega a criança pequena pela mão, atravessa de volta o mar de carros e em casa faz sopa de letrinhas. Mistura lágrimas à salsinha, coloca ração para o gato, água para o periquito, tira a roupa do varal... enquanto pensa: agora sou outra mulher.

domingo, 10 de janeiro de 2016

A concepção

Escrever é um ato sagrado. É gravar o abstrato numa dimensão visível e concreta.
É um ritual místico em que entidades habitantes do fantástico penetram sua alma no ato da criação.
Nesse cadinho de alterações de consciência surgem letras que se acasalam com outras letras,vírgulas e acentos e pontos finais e num movimento ondulante erótico-poético dão à luz palavras, frases e períodos completos.
Daí a ideia de "Pajelança das letras".
É intuição com um toque de razão.
É cérebro no ritmo do coração.
É passado, presente e futuro.
É disciplina com rebeldia calculada.
É o retorno do recalcado travestido de ficção.
Penso melhor que escrevo. Escrevo melhor que falo. O que não significa que escrevo bem. Apenas me sinto mais à vontade. Na escrita você pode mudar de ideia a qualquer momento, reescrever, apagar, reler, escrever de novo... já a letra falada... uma vez dita não tem como consertar.
"Pajelança das letras" não tem nenhuma outra pretensão que não seja reunir num único lugar minhas experiências cabalísticas na construção de textos.
Desejar ser lido é o desejo de todo escritor.
E todo escritor é um narcísico carente que além de ser lido quer ser amado. Ou odiado. Desejo nem sempre realizado. Ou nem sempre sabido. Talvez por isso o escritor não para de escrever.
Desejo que meus leitores realizem o meu desejo e o deles mesmos. Afinal, a leitura também é movida por um desejo secreto de se ter um prazer solitário. Tão solitário quanto o ato de escrever.
Bons encontros literários pra todos nós!